Thursday, 29 November 2007

Madrugada

Duas da manhã. Passo os olhos pelos livros que ficam no escritórinho, lá no quarto dos fundos.
J. E. Aoni Filho, "O Lado Cômico da Vida" - abro o livro e descubro que meu tio escrevia, além de contos, monólogos para teatro (e ele também era um pintor dono de quadros lindos - eu adorava ficar no estúdio dele, nas férias, quando era pequenininha). Meu avô também era escritor mas eu não lembro dele.
No meio de páginas amareladas, uma homenagem a Willian Aoni. As lágrimas escorrem sem força. Tio Willian era foda. Dou risada com trechos de um dos monólogos, fecho o livro, olho para as "pastas de administrador de empresas" do meu pai e penso: Eita pai, escondendo o ouro hein? Família de artistas... lá do fundo, lá das raízes!
É, tá na veia.

Saudades

Claro que eu sinto saudades. E claro que você também deve sentir. Saudades é o vazio que uma pessoa deixa quando vai embora. E existem tantas maneiras de se ir embora… as mais doídas são aquelas em que não ficou claro para um dos dois que o outro foi embora. O outro só percebe quando já se passou muito tempo. Essa dói demais. De repente dá um estalo e você percebe que perdeu aquela pessoa. Para sempre. Você vê ela de novo, conversa com ela, sai com ela, mas você a perdeu. Para sempre. Escapou pelos dedos como água. Tão transparente quanto; você nem percebeu. Devíamos prestar mais atenção nas pessoas que passam pelo nosso rio de águas turvas. Deviamos prestar atenção. Não para prendê-las. Mas para saber nadar com elas. Antes que a percamos. Para sempre.

Sunday, 11 November 2007

Mençao honrosa ao poema abaixo (ou Porque todo mundo tem que ler isso mais uma vez)

CELEBRAÇÃO AO BURACO

Vamos todos ao buraco
Brincar de diabinhos mágicos
com purpurina guardada nos bolsos
Vamos todos nos jogar
Na lama e caos da falsidade
Dos sorrisos de plástico
Da maquiagem em excesso
Vamos todos ao buraco
Fingir que somos felizes
Enquanto ele nos engole por inteiro
O buraco é que tem razão
Seres estúpidos
Temos espelhos por todos os lados
Olhem bem
Este buraco são vocês
Tim-tim.

Chove chuva

Seis da manhã. A chuva começa devagar
e vai aumentando junto com a velocidade do vento.
Olho pra calçada molhada e balbucio "The horror... the horror..."
Desço do táxi e resolvo que vou tomar banho de céu.
A chuva lava minha alma, meu corpo, meus olhos
e penso em como o ser humano é podre.
Tudo vai se explodir, de qualquer forma.
A chuva me ajuda a aguentar o tranco da consciência em excesso.
Fico ali inundada, parada, esperando nada.
Absolutamente nada.
Só a chuva que chove.
E me lava... da cabeça aos pés.
Agora posso dormir em paz.