Tuesday, 4 November 2008

diálogo inútil do abismo com a queda.

"Ela não aguentou". Me disse isso segurando na minha mão. Na outra mão, um saquinho de calmantes. "Não deu. Ela não aguentou." O choro saiu seco, único, como uma tosse. Saiu de uma vez para não voltar nunca mais durante aquela semana inteira.
Anos se passaram. Penso nela dentro de camarins e em palcos aconchegantes e com pouca luz. Penso nela quando dirijo a mil por hora no meio da noite. Penso nela toda vez que não caibo em mim e explodo; o mesmo choro: seco, único, como uma tosse. Penso nela quando vejo (sempre) que estou e sou sozinha. E quando estou sozinha falo, entre soluços: "Filha duma puta. Foi egoísta até na hora de se matar."
Quem vai ser a próxima garota linda, saudável e inteligente a se jogar do alto de um prédio numa noite fria dessa cidade só para mostrar desesperadamente que não conseguiu (ou não soube) lutar pelo seu lugar dentro do lugar da luta e, muito menos, conseguiu lidar com o sutil e às vezes caótico e complexo 'versus' de tudo?
Penso nela em noites frias. E se numa dessas noites ela estivesse do meu lado, eu diria: "Aguenta. Aguenta porque eu estou aqui." Saudades, meu anjo. Saudades.
E no dia seguinte, quando acordei, vi que - mesmo quando não quero - sou como o elefante. Levantei, escovei os dentes, tomei café e recomecei tuuuuuuuudo de novo. a bolsa. o bilhete. o tênis. a rua. as pessoas. os sonhos. o medo. a dúvida. a mensagem. a esperança. a alegria. a dor. tuuuuuuudo de novo.
Foi então que ali, descendo a rua, com o vento soprando leve no rosto, eu quase esbocei um sorriso... quase.

3 comments:

  1. Débora,

    Agradeço pela publicação de parte do meu poema MUDE. Espero que você conheça o texto todo.

    Livro Mude foi editado pela Pandabooks, com prefácio de Antonio Abujamra, e está à venda nas grandes livrarias.

    Detalhes no blog Mude:

    Onde se pode ver também o vídeo Mude, que foi comercial da Fiat.

    Abraços, flores, estrelas..

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  2. Ahmm!!

    Fiquei espantado com o poemeto. Estou triste comigo, porque não te presenciei numa peça de teatro... mas te vi naquelas fotos... tã... tão... ... ai.
    Vou te dizer uns negócio que descobri esses dias, mas num se espanta comigo, nem me despreza... O suicídio é o efeito da inveja que saiu pela culatra de alguém... Calma sempre. Tá. E pensa na respiração. É tão bonito como todo o universo entra e sai.
    O meu anjinho está no céu, e...sabe, às vezes vejo ele rindo sozinho. Que bobo, idiota - penso. Mas aí me lembro que o bobo conquistou a arca do céu, e que idiota é aquele que sofre de uma doença da compaixão ou de um amor universal, disse uma vez Helena Vassina. E que Cristos foram um idiota, disse isso, de certa forma, Dostoievski.

    Um beijo, elefanta.
    Hj, estou me sentindo um travesti (tem coisa pior e mais ridícula?),
    Dan.
    (quero que seja lindo)!

    danielsampa@hotmail.com

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